Importações crescem e revelam retomada do consumo local

Portal Química – As importações de dióxido de titânio (TiO2) mantiveram no primeiro quadrimestre o ritmo crescente, iniciado ainda em 2017. Caso se mantenha o volume mensal ao longo do ano, será possível retornar ao patamar de negócios com o pigmento verificado em 2014, ou seja, no momento anterior à crise econômica.

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Porém, a forte valorização do dólar americano em relação às demais moedas, em especial às dos países emergente, caso do Brasil, pode ser um empecilho para a evolução dessas importações. Também será preciso esperar para saber qual o impacto da variação cambial no desempenho da economia brasileira em geral, que será determinante para o comportamento da demanda por tintas, plásticos e papéis, os maiores consumidores do dióxido de titânio.

A China, importante player global, está pressionando toda a sua indústria – principalmente a química – a adotar padrões ambientais mais elevados. Esperava-se que a forte pressão oficial afetasse a oferta de dióxido de titânio, mas isso não está se verificando na prática. Percebe-se uma retomada dos preços globais do pigmento, porém isso se deve aos movimentos normais do mercado, caracterizado por ciclos de alta e baixa frequentes.

Como explicou Ciro de Mattos Marino, CEO da Cristal (segunda maior produtora global) no Brasil, o mercado mundial do dióxido de titânio, estimado em torno de 6 milhões de t/ano, em 2017, com crescimento de 2,3% sobre o ano anterior, permanece buscando um ponto de equilíbrio depois do baque de 2015, quando as indústrias desovaram seus enormes estoques para fazer caixa, deprimindo os valores de negociação em todo o mundo. “Isso foi feito porque toda a cadeia de consumo estava estocada, num momento em que a economia global estava relativamente fraca, em processo iniciado em 2013”, comentou. Com o caixa apertado, os fabricantes adiaram as intervenções de manutenção necessárias para garantir a confiabilidade operacional.

Em 2015, com mercado saturado de produtos, os clientes também reduziram seus estoques, porém 2016 começou desabastecido e com as fábricas de TiO2 parando para manutenções corretivas inadiáveis. “No entanto, a situação se inverteu completamente, em 2016 não havia mais produtos em estoque, os clientes voltaram a comprar e, com o receio de ficar sem insumo, compraram além do necessário”, relatou Marino. Os preços dispararam. “De 2015 para cá, a alta é da ordem de 50%, mas ainda com o valor bem abaixo do verificado na crise de abastecimento anterior, a de 2010/11”.

Marino comentou que, à medida que o preço do TiO2 sobe, a demanda se retrai. O ponto crítico histórico seria a cotação de US$ 4 mil/t. “Quando se chega nesse valor, o uso de extensores e sucedâneos do titânio vai ao máximo possível e o mercado começa a adotar novos padrões de qualidade e desempenho para os produtos, reduzindo a utilização dos pigmentos nas formulações”, apontou. A indústria de tintas é a mais afetada pelo preço do insumo, porque o consumidor final é o menos tecnicamente preparado para entender as mudanças na composição dos itens que adquire. Por sua vez, os clientes das indústrias de papel e plástico, por atuarem como transformadores e intermediários na cadeia de suprimentos, são profissionais e conhecem bem as características que desejam e nem sempre aceitam alterações nas suas formulações.

No caso das tintas, Marino estima que o dióxido de titânio represente, em média, 8% em peso das tintas imobiliárias no Brasil. As linhas premium podem chegar a 14%, enquanto as econômicas usam entre zero e 4%. “A participação do titânio no custo de uma tinta é relevante, mas não exagerado”, disse. No caso das tintas automotivas, não se percebe mudanças nas formulações para reduzir o uso do pigmento, dada a dificuldade de alcançar o mesmo padrão de cor e desempenho dos produtos.

Aliás, Marino é categórico ao afirmar que não existem dois tipos idênticos de dióxido de titânio no mundo. “Cada fábrica tem processos e patentes específicos de produção e, ainda, contam com abastecimento de matérias-primas distintas – lembrando que as matérias-primas básicas para produção do TiO2 são de origem mineral, e que a ocorrência destes minérios no mundo tem composição variável a depender da sua localização –, dada estas condições, fábricas diferentes jamais produzirão pigmentos idênticos, mesmo que pertençam ao mesmo grupo empresarial e adotem a mesma tecnologia industrial”.

A curva de elevação de preços de 2015 até agora se mostra menos inclinada que em épocas anteriores de picos de preços. As indústrias completaram suas tarefas de manutenção e não são esperadas paralisações. “A China começa a trabalhar mais forte depois das comemorações do ano novo de lá, que ocorrem próximas do nosso Carnaval, e a painting season dos Estados Unidos começa em abril-maio, e o pico coincide com o verão no Hemisfério Norte”, salientou. “Vamos ver como se comportarão os preços no pico da demanda, por enquanto o mercado está mais ou menos equilibrado.”

Havia alguma expectativa de cortes na produção chinesa, mas isso não ocorreu. “O governo chinês está agindo com rigor para estimular a sustentabilidade da produção, característica que foi pouco observada no passado, gerando problemas enormes de abastecimento de água e demais impactos no meio ambiente”, disse. “Mas, se algum produtor de dióxido de titânio fechou, ou ele era muito pequeno ou foi substituído por outro mais moderno.”

Marino observa que a legislação chinesa pode impor restrições de produção ou mesmo o fechamento de unidades inteiras se observar que estejam operando além dos limites oficiais de emissão de poluentes. Isso pode afetar uma cadeia produtiva a montante e a jusante dessas plantas, criando um quadro de inconstância nos suprimentos chineses. “Acredito que eles estão preparando um futuro melhor, mas a transição poderá ter alguns solavancos.”

Os fabricantes globais se prepararam para manter o abastecimento ao mercado caso ocorram fechamentos mais significativos de unidades chinesas. “A Chemours segue empenhada em atender à crescente demanda de seus clientes ao redor do mundo; todas as ações cabíveis estão sendo tomadas para cumprirmos com nossos compromissos de fornecimento”, afirmou Cláudia Almeida Antunes, gerente de negócios para Tecnologias de Titânio da Chemours Brasil. “No Brasil, o devido planejamento alinhado com nossos clientes é fundamental para podermos ter o material e volume requeridos de forma efetiva.”

A China é um player importante, com uma indústria que opera majoritariamente pela rota sulfato. “Mais recentemente, o governo de lá passou a estimular a instalação de fábricas com o processo cloreto, oferecendo subsídios às exportações”, explicou Marino. Ele se recorda com esse expediente já foi usado pela China no passado e levou ao desembarque de pigmentos chineses subsidiados no Brasil entre 2000 e 2007, porém, naquela ocasião, eram produtos de baixa qualidade e, portanto, de menor impacto na indústria. “A partir de 2010-2012, começaram a aparecer produtos chineses de qualidade no nosso mercado, hoje em dia, os produtos mais antigos e estes mais modernos são ofertados concomitantemente.”

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A Cristal comprou a fabricante chinesa Tikon, produtora de dióxido de titânio de alta qualidade pelo processo sulfato, com capacidade para quase 50 mil t/ano, que exporta pigmento para Austrália, Índia, Oriente Médio, África e América Latina.

Quanto à atual preferência chinesa pelo processo cloreto, Marino defende a visão de que a via sulfato não é mais poluente que a via cloro, ao contrário do que se afirmar com frequência. “Uma das diferenças de processo está no tratamento da ilmenita, mineral composto de ferro e titânio, uma das matérias-primas para fabricação do pigmento; esse processo utiliza ácido sulfúrico e exige a adição suplementar de ferro, por exemplo, sucata metalúrgica, porém o resíduo principal deste processo é sulfato de ferro, um produto seguro que pode ser usado para tratamento de água e alimentação animal, por exemplo”, comentou. O processo cloro, segundo explicou, gera efluentes diferentes e menos amigáveis ao ambiente, além do que, normalmente, utiliza slag, ou o rutilo, ou, ainda, o rutilo sintético, produtos intermediários que já geraram efluentes e/ou emissões em suas respectivas etapas de produção e, portanto, anteriores ao processo de produção do pigmento. Comparando-se os dois processos de ponta a ponta, ou seja, do minério extraído do solo ao pigmento acabado, não existem grandes diferenças no impacto ambiental total. Os custos de instalação são mais favoráveis aos sulfatos, enquanto que os de operação são mais favoráveis para o processo cloreto.

No Brasil – As oscilações de mercado permitiram à unidade brasileira da Cristal, em Camaçari-BA, manter ocupada sua capacidade de 60 mil t/ano. Embora a demanda nacional exija a importação de, em média, 100 mil t/ano de dióxido de titânio tipo rutilo, isso é insuficiente para justificar a implantação de novas linhas produtivas ou ampliações. “Mantemos os investimentos para atualização tecnológica, automação de processos, saúde, segurança e meio ambiente, mas não temos nenhum plano para aumentar a capacidade da planta”, confirmou Marino. Ele atribui a falta de apetite para ampliações à insegurança jurídica do país, entre outras, as variações frequentes de alíquotas de importação que impedem qualquer planejamento de longo prazo. “Sem previsibilidade, não há investimentos”, concluiu.

Neste ano, não foram instituídas cotas para importação de TiO2 com a alíquota temporária de 2%, como aconteceu em anos anteriores. Marino entende que a adoção de cotas e ou de qualquer condição temporária não beneficia o mercado como um todo e acrescenta que a Cristal tem trabalhado com o governo federal e associações da indústria para uma flexibilização responsável e permanente da alíquota do imposto de importação aplicável a todos os casos. “O Brasil tem um acordo de cooperação econômica com o México pelo do qual seus pigmentos pagam a metade do valor da alíquota vigente, então, a condição de uma alíquota menor e alinhada com a praticada pelos países produtores de dióxido de titânio, traria um benefício adicional aos consumidores brasileiros em geral”, disse. Segundo Marino, todos os países produtores do pigmento entendem ser necessário uma proteção mínima para compensar alguns movimentos comerciais deletérios praticados por alguns produtores.

Além disso, a permanência da chamada guerra fiscal entre estados da União provoca subsídios indiretos aos produtos importados. “Há portos com incentivos que chegam a 4% do valor do produto importado, isso cria distorções adicionais”, criticou.

Na sua avaliação, o mercado brasileiro tem porte para comportar uma fábrica de 200 mil a 250 mil t/ano de TiO2 para abastecer o país e a região, porém, “incertezas políticas e econômicas, somadas às flutuações da taxa cambial e à instabilidade das normas locais prejudica os investimentos”, comentou.

Observando o mercado global, Marino aponta poucas mudanças. Algumas unidades mais antigas foram fechadas, como as de Calais e Le Havre, na França, bem como as de Edge Moor e Johnsonville, nos EUA. Ao mesmo tempo, entraram em operação novas capacidades que compensaram esses movimentos.

É o caso da linha adicional de produção de TiO2 da Chemours em Altamira (México), que foi projetada para acrescentar 200 mil t/ano à produção do site ao longo de vários anos. As antigas unidades de Edge Moor e Johnsonville, somadas, podiam gerar 150 mil t/ano do pigmento, mas com custos mais altos. “A Chemours recentemente inaugurou a primeira etapa da expansão da fábrica de Altamira e segue comprometida com o apoio ao crescimento de seus clientes”, afirmou Cláudia Antunes. “Nossos planos de otimização de plantas, produtividade e produtos deverão aumentar em cerca de 10% a nossa capacidade até 2021. A Chemours só opera com a via cloreto e é, atualmente, a maior produtora mundial do pigmento.

Quanto à evolução tecnológica, ela segue sendo feita lentamente. “Não há grandes novidades, lançamos em 2016 o TiONA 242 para substituir o antigo RFKD, muito consumido no setor de plásticos”, comentou.

Também a Chemours fez seu mais recente lançamento em 2016, o TS 6300, que marcou presença na Abrafati 2017. “Temos novos produtos em desenvolvimento, mas nosso atual foco de inovação está na parceria com nossos clientes para o desenvolvimento e lançamento de tintas com maior desempenho nos mercados em que atuamos, usando como base os estudos de mercado conduzidos em diversos países” explicou Cláudia Antunes. Alguns clientes do Brasil já estão avaliando as parcerias.

A companhia inaugurou oficialmente em 2018 suas novas instalações comerciais no Brasil, em Alphaville (Barueri-SP), totalmente separadas DuPont, da qual fazia parte até a reestruturação de negócios promovida em 2015. O moderno escritório abriga as divisões de titânio, produtos fluorados e soluções químicas.

Ainda está em avaliação por parte dos órgãos de defesa concorrencial de alguns países (especialmente pela FTC, dos Estados Unidos) a proposta de compra da Cristal pela Tronox, que daria origem ao maior produtor mundial de dióxido de titânio, com amplas sinergias advindas da integração de negócios, incluindo mineração. “As empresas seguem suas atividades completamente separadas até que seja aprovada a consolidação”, comentou Marino.

Fonte original do texto: https://www.quimica.com.br/importacoes-crescem-e-revelam-retomada-do-consumo-local-tintas/3/

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